San Fernando del Valle de Catamarca [Bônus = Experiência com trabalho voluntário]

catamarca-norte-argentino

Welcome to Fabulous Catamarca. A cidade não é famosa por cassinos, mas por ser um refúgio da “Babilônia”.

No blog anterior, eu tinha escrito uma breve experiência do meu trabalho voluntário em Catamarca, sem me aprofundar muito no que fazer na cidade ou no que eu trabalhei exatamente. Ou melhor, como eu consegui este trabalho voluntário.

Existe toda uma indústria de trabalhos voluntários pelo mundo. Muitas vezes algo que deveria ser uma ferramenta para ajuda ao próximo se torna em um negócio, e aí as coisas desandam. Sem falar na parte prática, que é te deixar confuso(a) sobre o que fazer.

No meu antigo blog, eu queria mais era criticar a reportagem do site Hypeness,  que mostrava em essência que voluntariado era coisa de gente vazia ou rica querendo “se mostrar boazinha.” Ironicamente o Hypeness, assim como outras plataformas grandes, usa este sistema de “jornalismo caça-clique” que cria matérias fúteis com manchetes extravagantes somente com o propósito de criar tráfego para seus sites.

Nada contra. Cada um tem um jeito de ganhar a vida.

Antes de escrever o que você vai ver neste artigo, quero deixar alguns pontos claros sobre minha opinião de pessoas que fazem voluntariado. Uma crítica resumida a quem acha que trabalho voluntário é “estrelismo”.

Sobre o Trabalho Voluntário

  • Em primeiro lugar, gostaria de dizer que se você, assim como eu, possui uma rede social (principalmente o Instagram ou Snapchat), você está massageando seu ego diariamente. Lamento, mas é a real.

Escrevemos no Facebook “bom dia, Jesus” ao acordar em uma manhã durante a semana e xingamos o Temer quase toda hora, informamos que estamos indo escovar os dentes no Twitter e compartilhamos fotos de gatinhos no Instagram.

Este comportamento nas redes sociais é uma forma de identificação e de autoafirmação que normalmente você não pode fazer na vida real. O ego nada mais faz com que você, como indivíduo, deseje “se mostrar” para ao mundo. Se isto é legal, saudável ou chato não cabe dizer neste artigo.

  • Em segundo lugar, tenho minhas dúvidas se existe realmente um “voluntariado superficial”, assim como apontava o Hypeness. Uma pessoa que escolhe fazer voluntariado em uma vila num país pobre da África ou no interior do Nordeste ao invés de ir passear na frente da Torre Eiffel ou em uma praia caribenha não pode ser uma pessoa superficial. E mesmo se ela for, duvido que ela mesma não saia transformada minimamente depois da experiência.

Eu conheci pessoas que mudaram da água pro vinho simplesmente porque fizeram um mochilão. Seja pela América do Sul ou qualquer lugar.

Elas puderam ver que o mundo é maior do que se imagina.

Ou seja, trabalho voluntário é a menor das atividades da vida em que o ego e o desejo de aparecer são fundamentais.

O que você vai ler neste artigo

  • Por que fui a Catamarca
  • Primeiras impressões da cidade
  • Como consegui meu voluntariado e funções
  • Natureza da região
  • Considerações finais

De Resistência a Catamarca

Eu não tinha muita expectativa sobre meu trabalho voluntário. Estava apenas curioso porque nunca fiz um antes, e a ideia era ficar numa vila chamada Miraflores, vizinha de Catamarca.

Eu havia acertado com meus hosts que ficaria numa barraca e trabalharia pela manhã, com outros voluntários. Foi aí também que percebi que a Argentina é um país bem grande. Eu saí de Resistência, uma cidade na região do “tchaco” onde eu fiquei depois do Paraguai, e peguei o ônibus em direção ao Noroeste Argentino.

No ônibus, comecei a pensar numa situação que não tinha me dado conta quando saí de Florianópolis e que iria me apavorar com o passar do tempo na Argentina. Meu dinheiro provavelmente viraria “capim” no país.

Dito e feito.

A passagem de ônibus tinha me custado caro. E o Dólar a R$4,10 não ajudava muito também. Fora a desvalorização do Peso e a inflação galopante.

Ao chegar, já tarde da noite, peguei um ônibus urbano no mesmo Terminal de Ônibus que desci. Fui a caminho do endereço do meu voluntariado onde meu host Carlos iria me encontrar. Eu estava entrando na pacata Miraflores.

Mais precisamente, nas instalações do futuro eco-hostel Ayodhya.

miraflores-ayodhya
A casa de Carlos e Lily. 100% construída com materiais reciclados, barro e sustentável da fundação ao teto.

Montando acampamento

Acho que antes posso contar como consegui esse trabalho voluntário, né?

Então, eu pesquisei muito na internet e me deparei com alguns sites em que você faz o cadastro e tem acesso a bancos de dados de trabalhos voluntários ao redor do mundo. Os mais conhecidos são Helpx, WWOOF e o que eu me inscrevi, o Workaway.

  • WWOOF: Foca no trabalho voluntário em fazendas sustentáveis. Mais indicado para quem quer saber mais ou entrar no universo da bio-construção.
  • Workaway: Banco de dados com diversos trabalhos em troca de hospedagem e comida. Você pode trabalhar de 4-5 horas no máximo em diversos setores, não apenas com o campo. Existem muitos hostels, escolas de idiomas, hoteis e ONGS neste site.
  • Helpx: Parecido com o Workaway, porém está há mais tempo na ativa. Têm mais trabalhos em países como Estados Unidos e Nova Zelândia, ou pelo continente europeu.

Eu me inscrevi no Workaway em Dezembro de 2015, para que nas minhas próximas viagens eu poder fazer um trabalho voluntário.

Sim, tem que pagar para ter acesso ao banco de dados. Não, não é caro. Pelo menos eu não acho caro.

Você tem acesso por dois anos a um banco de dados com lugares para trabalhar em qualquer parte do mundo, então vale a pena. Especialmente se você planeja um mochilão de longo prazo. É só fazer as contas e calcular o quanto de hospedagem e comida você vai economizar. Além de causar algum impacto positivo na comunidade que você vai se assentar.

Sobre minha estadia:

  • Carlos me apresentou para meus colegas de trabalho e para sua esposa, Lily. Ela era a responsável pelas refeições, e também a culpada por nos engordar.
  • Por falar nisso, foi aí que tive contato pela primeira vez com comida 100% vegana e da terra que eles semeavam. Mais uma vez estava superando meus limites e aprendendo coisas novas. Lily cozinhava comida vegana como se fossem dos Céus.
  • Trabalhava 4 horas por dia, seja preparando cimento, rebocando paredes, quebrando pedras e organizando materiais para a construção do hostel Ayodhya. Apesar de parecer dureza, gostei muito da experiência e principalmente de meus colegas de trabalho.
  • Meus colegas de voluntariado era um casal de Salta, Pablo e Betiana e os franceses Frédéric e Mathilde. Nos entrosamos tão bem que no fim a gente se chamava de “El Equipo” e sempre saíamos juntos a conhecer os lugares turísticos em volta ou simplesmente “ficar de boa”.
  • Após as horas trabalhadas, íamos almoçar e conversar um pouco com o casal Carlos e Lily, idosos porteños que agora construíam um sonho no meio do nada.
  • Nas horas livres, El Equipo não se desgrudava. Saímos explorar Miraflores, Catamarca, fizemos trilhas e saímos à noite.
miraflores-voluntario-argentina
Da esquerda para direita, de pé: eu, Pablo, Betiana, Lily e Mathilde. Sentados estão Fredéric e Carlos.

Miraflores e arredores

Miraflores é uma vila de uma comunidade religiosa e eles possuem hospitais, escolas, farmácias entre outras coisas. Os princípios desta comunidade são inspirados na religião hinduísta.

O próprio nome do hostel de Carlos e Lily, Ayodhya, tem inspiração do antigo santuário na Índia.

O povo de Miraflores tem uma alimentação vegana, não bebe álcool e vive da maneira mais simples e ecológica possível. Muita gente não percebe, mas o dinheiro que voluntários gastam como “taxa de inscrição” pode ser o salário de um professor da comunidade, o pagamento de uma conta de luz/água de uma ONG etc.

O preço que o Workaway cobra, no entanto, é muito menor do que se você contratar uma empresa ou tentar ir por conta. Eles vão te cobrar de R$500 a incríveis R$3000 como taxa de inscrição. Alguns nem incluem comida e habitação, sendo que você literalmente paga para trabalhar.

Está curtindo ler este artigo? Aproveite para curtir a página no Facebook

Jogo rápido – Uns toques para quem pensa em fazer trabalho voluntário:

  • Decida o que você quer de um voluntariado. Quer apenas um lugar barato pra dormir? Ou conhecer gente de outros países? Quem sabe você realmente se importe com bio-construções? Se quiser apenas um lugar barato pra dormir, envie um email para um hostel localizado no lugar que você vai viajar ou pergunte no balcão se precisam de gente para trabalhar. Espera-se que você realmente cause um impacto positivo no lugar onde você vai se instalar, e não apenas um turista.
  • Não pense, trabalhe. Péssima essa frase, né? Existem muitos projetos interessantes nos sites citados neste artigo e a maioria deles você ganha a habitação grátis e mais de uma refeição ao dia. Não hesite em querer se inscrever. Os sites possuem referências e deixam ambos hosts e guests escreverem suas experiências. Isso evita furadas e te faz ter uma ideia em onde você está se metendo.

Junte o útil ao agradável! Se você é programador, web-designer, professor, psicólogo ou trabalha nas áreas da saúde ou contabilidade, saiba que muitas ONGs precisam MUITO destes profissionais. Bem, não é tão legal quanto construir uma escola no interior do Nordeste do zero ou cuidar de lhamas, mas seu trabalho será tão importante e útil quanto. E de quebra você ganha experiência, tanto profissional como de vida.

Voltemos a Miraflores

Não há muito o que fazer em Miraflores. Basicamente explorávamos as trilhas que saíam de Ayodhya. Era uma paisagem incrível, que não deixava a desejar. Eu adorava olhar as montanhas imensas ao fundo, que formava o vale de Catamarca. O ar que entrava nos pulmões era limpo e puro, coisa que nunca tinha sentido antes, mesmo vivendo em uma cidade minimamente verde como Florianópolis.

Chegamos inclusive a ver serpentes pelas estradas de terra. Aranhas imensas eram comuns de ser encontradas em nossas barracas, devido a natureza cercando a gente.

A cidade de Catamarca

San Fernando del Valle de Catamarca, ou simplesmente Catamarca, pode parecer a princípio uma pacata cidade do interior. Ela é mesmo bem calma, mas na verdade é uma cidade de tamanho médio.

Devido a baixa procura por turistas, as belezas naturais são intocadas e a cidade é muito verde. O povo é tranquilo e te pergunta mil coisas, já porque não é comum ver turistas pela cidade. Nem os próprios argentinos visitam a região de Catamarca.

Deveriam.

jovenes-catamarca
Era muito comum ver adolescentes sempre reunidos nas praças da cidade

Ela possui um centro pequeno, e famílias vão adorar ficar na cidade. Vários rios e cachoeiras cercam o Vale, e também é possível fazer uma trilha até o topo de uma das montanhas.

De todos os clichês possíveis e passeios que poderia fazer, algo bem brasileiro me chamou a atenção na minha estadia  Catamarca e Miraflores.

Era época de Carnaval, e Miraflores não ficou de fora das comemorações. Apesar de ser essencialmente hindu, lá também moram pessoas nativas da cidade, antes da comunidade religiosa de Carlos e Lily se instalarem por lá. Foi a coisa mais bizarra que vi até então, apesar dos esforços do povo de fazer um desfile bonito e organizado.

Fotos de Catamarca + Carnaval em Miraflores

Ao fundo, o templo dos fiéis de Miraflores.
asado-argentino
Procurando materiais para fazer um churrasco argentino
peatonal-catamarca
Calçadão de Catamarca
miraflores-ayodhya
Toda noite, a gente jogava vários jogos e conversava horrores. É engraçado a vida quando o Wi-Fi é ruim
parrilla-catamarca
Parrilla!
tango-catamarca
Assim como em Buenos Aires, o pessoal dança e ensina Tango ao ar-livre. É bem comum ver pessoas de todas as idades dançando nas praças
rio-miraflores
Filosofando com a Mathilde
carnaval-miraflores
Até que as fantasias e o desfile foram bons no geral
carnaval-calle-miraflores
Na verdade, ele foi mais alegre que qualquer um que eu já fui no Brasil. Talvez porque Carnaval aqui não virou negócio
chicos-carnaval-miraflores
E todo mundo MESMO participa =)

Agora é a sua vez

Se você está pensando em trabalhar como voluntário em alguma parte do mundo, recomendo muito se cadastrar em um dos sites e botar o pé na estrada. Não existe chance de ninguém responder, até porque quanto mais voluntários melhor.

Se ficou alguma dúvida que eu não consegui responder, pode escrever nos comentários que eu respondo.

catamarca-argentina
Sempre no meu S2

Não se esqueça de curtir a página no Facebook e compartilhar nas redes sociais este artigo.

Compartilhe no seu perfil

Comentários

comentários